Belém, 21/12/2012

Gente

Adorável loucura

Por: Leila Loureiro/ Fotos: Van Gonçalves / divulgação

Imagine esta cena: uma atriz, da novela que revolucionou a recente história da teledramaturgia brasileira, agenda entrevista por meio de uma rede social. Não se detenha, exercite sua imaginação e vá um pouco além: imagine essa mesma atriz te receber pra entrevista, com cabelos molhados pós-banho e te sugerir andar até o café da esquina usando vestido e chinelos. Achou surreal? Não quando o assunto é Letícia Isnard – o sucesso não subiu à cabeça que compõe um corpo com pés tão fincados no chão.

Quem se depara com a linda mulher de olhos azuis, totalmente low profile, pode se assustar ao constatar que é ela, sim, a mesma pessoa que encarnou a personagem Ivana, que encantou a todos com sua extravagância e o seu vocabulário infantil, na novela Avenida Brasil, febre que parou o país, como só as finais de copa do mundo justificam.

A ingênua irmã do protagonista Tufão [vivido na mesma trama pelo ator Murilo Benício] não caiu de paraquedas na bem-sucedida saga de João Emanuel Carneiro. Letícia Isnard constrói a sua carreira de atriz há 17 anos, carregando um currículo admirável para quem tem apenas 38 anos.

A carioca Letícia foi bailarina clássica e contemporânea profissional, paixão que exerceu desde os 11 anos de idade até o momento em que, nas palavras da própria Letícia, “o corpo não era mais suficiente, eu precisava me expressar por meio da fala”. Paralelamente à dança, Letícia cursou dois anos da faculdade de Direito, mas se formou Bacharel em Ciências Sociais na PUC-RJ, sendo Mestre em Sociologia com concentração em Antropologia pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia no IFCS/UFRJ em 2001, quando ganhou uma bolsa da Organização Internacional Social Science Research Councial para cursar o Doutorado em NY, projeto desviado de sua vida em função do trágico 11 de setembro.

E as “co-incidências” do destino continuaram andando de mãos dadas com a persistência e determinação da escorpiana Letícia. Integrante da Companhia de Teatro “Os Dezequilibrados” desde 2001, atuou em várias peças, como “Bonitinha, mas ordinária” (20001/2002), “Quero ser Romeu e Julieta” (2006), entre outras, quando, em 2011, foi indicada ao Prêmio Shell de Melhor Atriz com a peça argentina, que traduziu e produziu, chamada “A Estupidez”, de Rafael Spregelburd e dirigida por Ivan Sugahara.

Não menos intenso é o seu caminhar pela televisão - e, mais recentemente, pelo cinema – , já que a carismática atriz caiu nas graças do povo, que se surpreende ao vê-la dentro de um ônibus ou andando calmamente pelas ruas de Botafogo, onde mora. Eu pergunto a ela, observando o burburinho que se forma com a sua presença  em torno da nossa mesa, “agora que a atriz de teatro ficou famosa, o que mais falta a você?”. “Quero formar uma família, casar e ter filhos”. Sim, Letícia é uma mulher comum, e, por isso mesmo, tão especial.

E foi assim, em meio ao burburinho, tendo um cenário paradisíaco ao fundo, que Letícia bateu um papo com a Revista Leal Moreira.

Impossível não iniciarmos o papo lembrando da personagem Ivana, na novela global “Avenida Brasil”. Mas, antes da Ivana, você fez muitas participações em séries da Globo, correto?

Sim, muitas pessoas não correlacionam as personagens, mas fiz parte do elenco fixo do programa “Minha Nada Mole Vida”, em 2006/2007, com Luiz Fernando Guimarães, ator que admiro muito;  também atuei na novela “Beleza Pura” (2008) e na minissérie “Afinal, o que querem as mulheres?” (2010) de Luiz Fernando Carvalho. Além de pequenas participações em Força Tarefa (2011), Tapas e Beijos (2011), Grande Família (2010), Cilada (2009), Toma lá dá cá (2009), entre outros, todos na Rede Globo de Televisão.

E como a socióloga Letícia Isnard se tornou atriz?

Sempre tive o desejo de atuar, mas, na minha família, não existiam artistas e perdi meu pai muito cedo, portanto, havia a ideia de investir em algo que fosse financeiramente mais seguro. Daí veio a carreira acadêmica, que eu levava em paralelo com o teatro, consequência da carreira de bailarina profissional até os 23 anos. Na verdade, a minha vida acadêmica já estava impregnada pela arte, tanto que, muito envolvida pela ideologia comunista, o meu tema de dissertação do mestrado foi “o uso do teatro nos projetos sociais”, focando na adequação do discurso marxista de transformação ao cenário artístico, ou seja, o que a arte tem a ver com cidadania? Como a arte política estava inserida neste contexto de não mais transformar a sociedade, mas o indivíduo?

E nesse cenário acadêmico você já atuava?

Sim, mas acabei priorizando o mestrado, porque era o que me bancava. Era uma fase muito difícil de medos e dúvidas sobre qual caminho escolher.

E, pelo visto, essa escolha mudou de rumo...

Isso. Quando terminei o mestrado, fui selecionada para a bolsa de doutorado em Nova Iorque, para pesquisar a transmissão da memória da ditadura para gerações que não viveram os períodos ditatoriais, sendo que o meu enfoque era voltado para essa transmissão de memória no teatro brasileiro contemporâneo, que é escasso no Brasil. Era um belo projeto que acabei engavetando, em razão do acontecimentos de 11 de setembro [de 2011]

Mais uma obra do destino?

Acredito que sim, pois logo nesse período o Ivan Sugahara (diretor teatral) me convidou pra fazer parte da companhia de teatro “Os dezequilibrados”, e então encenei “Bonitinha, mas ordinária”, do Nelson Rodrigues, para um público de 30 pessoas (risos), e aí foi preciso muita coragem pra mudar de caminho e abandonar a carreira acadêmica.

E começou a se dedicar só ao teatro?

Sim, eu já estava mais engrenada na companhia e fiquei direto só com “Os dezequilibrados”, época em que eu fiz o cadastro na Globo, sendo que, 5 anos depois, eles me chamaram pra refazer o cadastro e fui selecionada pra fazer o seriado “Minha nada mole vida”, em 2006, com o Luis Fernando Guimarães. Foi o meu primeiro trabalho na emissora.

O primeiro de muitos outros.

Exato. Fiz várias participações em séries globais como “A grande Família”, “Tapas e Beijos” e “As Brasileiras”, mas sempre em paralelo com o teatro. Nunca deixei de produzir porque eu acredito no ato de arregaçar as mangas e correr atrás, tanto é que, de 3 anos pra cá, eu comecei a traduzir peças argentinas, como “Mulheres ensaiam Cavalos” e foi quando pintou “A estupidez”, do Rafael Spregelburd.

O espetáculo pelo qual você foi indicada ao Prêmio Shell de Melhor Atriz em 2011, certo? E soube que nasceu de muita insistência sua...

Sim, inscrevi esse espetáculo [A Estupidez] em todos os editais durante 5 anos e foi um grande sucesso. Uma personagem de comédia ser indicada ao Shell me surpreendeu, já que geralmente indicam monólogos ou dramas...um prêmio tão respeitado serve de estímulo, de reconhecimento.

E como surgiu o convite para você interpretar a Ivana, de Avenida Brasil?

Então, após todas as participações na Globo, no final de 2011 o Luciano Rabelo, produtor de elenco da novela, me ligou chamando pra fazer um teste e te confesso que fui bem desacreditada, porque se imagina que as novelas de horário nobre já têm um elenco fechado, escolhido a dedo, mas foi quando quebrei a cara, pois eles me escolheram.

E como foi a construção da personagem?

Depois que eu fui escolhida é que eu peguei a sinopse e fiquei sabendo que a personagem era “gorda e feia” (risos). E os colegas de elenco olhavam pra mim e diziam “tá errada essa escalação, é isso mesmo?”. Mas não tem o menor problema, incorporei a Ivana, com sua ingenuidade e suas expressões infantis, e a caracterização e o figurino ajudaram muito com aquelas roupas inadequadas, exageradas pra TV, o cabelo, sapatos...e, claro, seguindo a ideia de que “o ator é um bom ladrão”, copiei muito ao meu redor: a energia solar de uma tia minha, a movimentação das peruas na rua...

Você tinha noção da importância que a Ivana ganharia na trama?

Nunca imaginei que haveria esse espaço pra mim, achei que estivesse ali a serviço do coletivo e como minha formação veio da dança [e já fiz muito corpo de baile na minha vida], eu estava ali tranquila pra fazer a minha parte; mas, ao fim da novela, quando eu agradeci ao João Emanuel Carneiro (autor da novela Avenida Brasil) pelo meu papel, ouvi dele que a Ivana foi ganhando força a cada capítulo por conta da atriz. Acredito que seja daí o sucesso da novela, na minha opinião. O autor deixou a Amora [Mautner, uma das diretoras da novela] orquestrar a loucura que era aquilo.

Vocês construíram aqueles personagens de forma muito humana. O que a Letícia levou para a Ivana?

Na verdade, nós fazíamos exercícios de improvisação a cada cena, não era simplesmente criar “cacos”. Levei pra Ivana os florais, imaginando que ela era uma ex-fumante, e, por isso, ansiosa, descontava tudo na comida... Enfim, esse trabalho foi uma grande escola que durou 10 meses.

O que você aprendeu nesses 10 meses?

Muita coisa! Estar ali com aqueles atores consagrados, todos já estabelecidos e muito generosos, dando chance para os novos brilharem; um ambiente de igualdade e criatividade. Um simples “bater texto” com o Juca de Oliveira - olha que privilégio - já era enriquecedor. Ao final, sentimos muita falta daquela rotina, daquelas piadas, acredito que foi uma virada de carreira pra todo mundo do elenco. Foi um grande encontro.

E quais os seus planos futuros?

Estou em cartaz com a peça “Tarja Preta”, no Rio de Janeiro, com texto da Adriana Falcão, dirigida pelo Ivan Sugahara, e também no elenco da próxima novela das 19h, “Sangue Bom”, da Maria Adelaide Amaral, dirigida pelo Denis Carvalho, além de um longa, com estreia prevista para junho de 2013, chamado “Mato sem cachorro”, do Pedro Amorim. 

E o que você gosta de fazer nas horas vagas, se é que elas existem.

Verdade, desde Avenida Brasil não parei, com exceção de alguns poucos dias quando procuro relaxar, ler algo além de roteiros e capítulos. Voltei a dançar, a frequentar com mais assiduidade cinemas e teatros e, principalmente, dormir! Dormir pra mim é um programão!

Falando em dormir, quais os seus sonhos?

Como eu tive muitas perdas na minha vida, além da morte do meu pai quando eu tinha 15 anos, eu quase perdi um irmão para o câncer, sem contar as inúmeras mudanças de cidade, escolas, estava sempre perdendo amigos,tudo isso me transformou em uma pessoa muito cética, ou seja, nunca faço algo achando que vou “bombar” ou ganhar prêmios, não espero nada e aí acabo me surpreendendo, fico gratificada e feliz, o que não quer dizer que eu não tenha ambições.

Algo como a ideia do filósofo francês André Comte-Sponville que escreveu o livro “a felicidade desesperadamente”, em que se defende que a verdadeira felicidade nunca é esperada?

Isso! Aliás, não conheço. Me dá aqui sua caneta que vou anotar pra pesquisar. [ela anota o nome do livro]

Eis o resquício da Letícia acadêmica-socióloga-pesquisadora...

(risos) Sim, eu adoro ler, gosto muito de Paul Auster, Dostoiévski...

Em algum momento, existe um paradoxo da atriz global com a socióloga comunista?

Perdi muito tempo com preconceito da indústria do entretenimento, talvez pela formação de socióloga, por ser comunista sim, e hoje eu entendo o poder dessa comunicação, o poder transformador de uma novela como Avenida Brasil, por exemplo, que “neurotizou” o país. Perceber aquelas mulheres que se identificavam com a esposa maltratada, insegura e, de certa forma, somar algo a vida delas. Por mais que eu venha do teatro, mesmo com uma sala lotada, jamais conseguirei alcançar o número de espectadores que se atinge através da TV. E mais, ficou claro que o “povão”, a massa, gosta sim da sofisticação de um bom trabalho de TV. Acredito que agora é preciso abrir esses caminhos.