POR DENTRO DA LEAL MOREIRA

GRUDADOS NA COPA

 

 

 

 

De quatro em quatro anos, a Copa do Mundo junta famílias, amigos e colecionadores em clubes de troca para completar o álbum de figurinhas com os principais destaques do torneio

 

Há pelo menos dois meses, sob a temperatura alta das manhãs de Belém, geralmente aos domingos, mais de uma centena de pessoas se reúne na Praça Brasil. Dos avós aos netos, o objetivo comum é completar um álbum de figurinhas autocolantes. O Álbum da Copa do Mundo da Rússia 2018 é uma febre que não se resume apenas a fechar a revista. “São mães, avós, famílias inteiras nos grupos. É um clima familiar e muito bom. A gente acaba sabendo um pouco das histórias de cada um”, conta a médica Heloísa Melo, que vai com o filho aos clubes de troca de figurinhas.

Ambientes como estes, dos clubes de troca, se repetem em vários pontos da capital paraense. Famílias com as mais diversas formações se reúnem às dezenas, às vezes às centenas, em praças, shoppings, canteiros centrais de ruas, qualquer lugar próximo a uma banca de revistas. De quatro em quatro anos, a Copa do Mundo revive a febre pelos autocolantes que faz com que a comemoração pelas 260 figuras seja comparada a um gol.

A busca pelas figuras não escolhe hora ou lugar. Assim como as áreas centrais do Boulevard Shopping viram uma feira de troca com todo o conforto do local, com uma banca de revistas bem sortida, as praças não deixam por menos, apesar das intempéries. “Eu passo uma manhã inteira debaixo de sol escaldante e fico parece um camarão, mas vale a pena. Faz parte de ser mãe, não é?”, brinca Heloísa.

Como os adultos também fazem parte do rol dos que vão atrás dos autocolantes,  locais que abrem à noite têm seus colecionadores. Não raro restaurantes como o Cantina Italiana ou o bar e boate Ziggy Hostel Club têm seus clientes trocando figurinhas. O Ziggy instituiu a happy hour das quartas-feiras como clubes de troca. 

 

 

 

 

 

 

Basta uma mesa para os colecionadores se juntarem e começarem as trocas

 

 

Este ano, a versão de capa cartão, ou capa mole, custa R$ 7,90. Cada pacote contém cinco figurinhas, ao custo de R$ 2,00. É o dobro do preço em relação à Copa anterior, no Brasil, e praticamente o triplo do mundial em 2010. Na época dos jogos na África do Sul, o pacote custava 75 centavos. Dessa vez, o valor mínimo para quem quiser completar o álbum de capa mole, caso não tenha nenhuma figurinha repetida, será de R$ 280,00.

Obviamente ninguém compra pacotes e mais pacotes sem figuras repetidas até fechar o álbum. Para alguns, esta busca faz parte da diversão. Em alguns locais, como a tradicional Banca do Alvino, na Praça da República, pode-se comprar figuras avulsas, escolhidas. Para Yago Serruya, de 11 anos, as nove figuras que faltam para completar o álbum valem uma peregrinação. “Eu compro os pacotes mais para ter o que trocar. Falta tão pouco, sei que vou conseguir logo”, afirma. A meta é chegar ao objetivo frustrado em 2014, quando o álbum ficou incompleto. “Eu era criança na época. Agora dá até para ter um segundo álbum. Nesse poderia até grudar as da Argentina de cabeça pra baixo pra que ela não vá longe”, brinca.

Heloísa Melo combinou com o filho Matheus que o ajudaria com o álbum. Com apenas quatro anos na Copa do Brasil, Matheus não chegou a fechar sua primeira coleção, mas dessa vez não quer deixar passar a oportunidade. “Ele é apaixonado por futebol, acompanha os campeonatos daqui e os europeus e estava ansioso pelo álbum. Nós temos as duas versões, capa dura e capa mole, e estamos próximos de completá-los”, conta Heloísa, que no clube da troca da Praça Brasil, um dos maiores da cidade, encontrou vários pares.

Em relação à última Copa, o álbum deste ano trouxe algumas mudanças. São 18 jogadores por time, há páginas especiais com cartazes das cidades-sede e figurinhas de jogadores e seleções históricas das Copas. Proprietário de uma banca de revistas na esquina da Avenida Rômulo Maiorana com a Travessa Humaitá, Sebastião Cid de Souza ressalta que o movimento aumenta bastante em função das figurinhas.

“Aqui funciona um clube da troca e aos domingos fica cheio. Como geralmente são famílias que vêm aqui, não é raro que aproveitem para fazer outras compras. O período da Copa do Mundo do Brasil foi o que mais faturei em todos esses anos aqui”, conta Cid, que deixa claro algumas regras de etiqueta dos clubes. “Aqui não tem compra e venda, só troca. Sempre deixamos isso bem claro”, explica o proprietário da banca, numa regra que nem sempre é seguida pelos colecionadores.

As figuras mais raras chegam a ser vendidas por até R$ 30,00. Colecionador de álbuns de figurinhas em geral, o professor Williams Coimbra conta que não costuma colar as figuras de alguns álbuns por várias razões, desde a convocação final até a possibilidade de venda. “Nos álbuns de Copa procuro completar vários exemplares. Alguns chego a vender para quem não tem paciência para comprar pacote por pacote”, afirma Williams.

 

 

 

                       A Banca do Cid no bairro do Marco fica lotada de aficcionados pelo álbum 

 

 

 

O perfil dos que procuram os álbuns de grandes eventos geralmente é de pais ou mães acompanhados dos filhos. Mas isso tem variado. “A maior parte é de famílias inteiras, mas tem também os adultos que colecionam desde criança e continuam com este hobby”, confirma Cid.

Nesse perfil mais familiar de colecionadores está Maria Fernanda, de 10 anos, que com o pai Cezar Rubim frequenta o clube da troca em busca das últimas figuras que faltam para o álbum. “Minha filha é apaixonada por esportes e treina futebol. Acompanha os campeonatos nacionais e internacionais e é fã de jogadores”, diz Cezar. Maria é mais uma que começou a colecionar na Copa do Mundo no Brasil e ficou apaixonada pelos álbuns. “Ela cobra as figuras, quer que a gente compre sempre, não aguenta as repetidas, pede para irmos trocar sempre e, como não poderia ser diferente, comemora muito quando completa uma seleção”, conta o pai.

 

 

 

 

 

 

Cezar Rubin e a filha, Maria Fernanda são viciados no álbum da Copa

 

Ausências – Como os álbuns são definidos pela editora italiana Panini no mês de janeiro, antes das escalações finais para o Mundial, é normal que hajam incorreções. Na seleção brasileira, os 18 nomes foram definidos a partir de pesquisas e consultas a jornalistas esportivos, o que não garante 100% de acertos nem que fosse combinado com o treinador. Titular absoluto nas duas últimas Copas, o lateral direito Daniel Alves foi cortado após uma lesão e está no álbum. Em casos como estes (ver quadro), a editora vem preparando lotes especiais de figurinhas com novos convocados. Após o fim das vendas do álbum, a Panini mantém a venda de figuras por encomenda por mais três meses para quem quiser fechar a coleção.

Williams Coimbra sabe muito bem como agir em casos assim. O colecionador de álbuns reafirma que só cola as figuras quando há essa definição, além de saber como completar em caso de trocas de jogadores. Ele explica que há uma rede de comunicações entre colecionadores de todo o país que envolve trocas e vendas, o que facilita em especial para quem já está neste meio. “Isso é normal. Um ajuda o outro a completar. Às vezes a ajuda vai além de achar uma ou outra figura. Tem colecionador que desiste e doa ou vende seus itens. Consegui muitos álbuns assim”. 

 

Curiosidades

 

Não estar no álbum da Copa não significa que não foi convocado. Nas três últimas edições do torneio, o que não falta são curiosidades com ausências e presenças que chamaram atenção. Em 2006, na Alemanha, Roque Júnior, Júlio Baptista e Renato estavam no álbum, mas não na Copa. Quatro anos depois, André Santos, Ronaldinho e Adriano não foram à África do Sul. No Brasil, em 2014 houve apenas um erro, com a inclusão do não convocado Robinho.

O colombiano Jhon Jairo Tréllez esteve nos álbuns das Copas de 1990 e 1994, mas em ambas foi cortado antes dos jogos. O mesmo aconteceu com o argentino Javier Zanetti nas edições de 2006 e 2010. Neste último ano, apenas a seleção da Holanda teve uma relação irretocável no álbum. O Brasil tem uma relação de craques que não foram convocados, mas deram o ar da graça nos álbuns.


Comentário