POR DENTRO DA LEAL MOREIRA

Com Açucar, Afeto e História

Doces do nosso cotidiano e pouco conhecidos no restante do Brasil como Monteiro Lopes e o Salva-Vidas, são um resgate à história e nossas melhores lembranças.
 
 
 
 
 

Logo que foram criados, na Europa, os doces tinham propósito e finalidade: nasceram da necessidade dos homens de criarem um alimento pequeno que servisse de sustento para viagens longas, proporcionando bastante energia. 

Quase um século depois, em 1850, a produção de doces começou a tomar proporções industriais nos Estados Unidos. Para se ter uma noção, um doce clássico, o chiclete, surgiu do costume que muitos povos antigos tinham de mastigar a resina de árvores, uma maneira de diminuir a sede, já que essa atividade estimulava as glândulas salivares. 

No Brasil, os doces surgiram no período colonial, a partir do século XVIII com a instalação em larga escala dos engenhos de açúcar. É importante lembrar que, antes disso, as primeiras sobremesas legitimamente brasileiras eram as frutas tropicais, regadas a mel.

Ao longo do tempo e da história, os doces se tornaram tradicionais no país (que o diga nosso Brigadeiro), mas muitos deles se desenvolveram especificamente em regiões diferentes do Brasil. Vamos te contar a seguir a história de doces tipicamente paraenses! Mas cuidado, a gente não garante que assim que terminar de ler esta matéria você não irá correndo atrás destas guloseimas.

 

Monteiro Lopes e Salva-Vidas

 

 

 

 

 

 

 

 

Difícil resistir ao biscoito amanteigado de duas cores, um lado branquinho e outro pretinho. Monteiro Lopes que se preze desmancha na boca. Também é difícil encontrar um paraense que nunca tenha apreciado o doce Salva-Vidas, uma espécie de bolo de três cores – rosa, marrom e branco – que tem o formato de uma boia usada para resgate e é coberto com açúcar. São doces tradicionais nas mesas dos paraenses, mas pouco conhecidos no restante do país e acredita-se que as suas origens são em terras parauaras.

Uma simples busca no Google sobre a origem do biscoito Monteiro Lopes e o resultado é uma história digna de uma peça de William Shakespeare, como Romeu e Julieta. Muito se fala que o nome Monteiro Lopes é uma homenagem à família que teria criado a receita, isso entre os anos de 1850 e 1890 em Belém, até então chamada de Santa Maria de Belém do Grão Pará. Nesse período, existiam duas padarias: uma na Oriental do mercado Ver-O-Peso e a outra na Ocidental do mercado. Uma delas era do mulato Manuel Monteiro e a outra de um português chamado Antônio Lopes. Eles eram concorrentes e famosos por produzir biscoitos de cores e paladares diferentes.

Os filhos dos padeiros do Ver-O-Peso, após a morte dos pais, teriam se casado e deixaram de ser concorrentes, juntando as cores preta e branca ao biscoito, batizando-o de Monteiro Lopes.

Mas o que conta a historiadora Cacilda Saraiva Pinto, chefe do serviço de museu do Tribunal de Justiça do Pará, é um pouco diferente e está registrado no livro comemorativo aos 140 anos do tribunal. O nome Monteiro Lopes, seria uma homenagem ao primeiro presidente negro de um tribunal de Justiça no Brasil em 1968, desembargador Agnano de Moura Monteiro Lopes, que também dá nome ao museu da sede do Poder Judiciário do Pará. De acordo com a historiadora, Agnano era descendente de negros escravizados no Brasil. Quando ainda era juiz, apaixonou-se por uma mulher branca de olhos claros. O relacionamento não era aceito pelos pais dela. Lutaram muito por esse amor, até que decidiram casar na igreja da Trindade, mesmo contra a vontade dos pais da noiva. No dia do casamento, uma doceira, amiga da mãe de Agnano, ofereceu um biscoito que batizou de Monteiro Lopes em homenagem ao amor que superou preconceitos. “O docinho demonstrava que, como o amor do casal, dissolveria, mas nunca iria se partir. A outra curiosidade é a junção das cores no biscoito, simbolizando a união das cores de pele do casal”, contou Cacilda.

 

 

Segredo de família

 

 

Há, pelo menos, três gerações que um segredo de família fez com que os Salva-Vidas da doceria Eti Mariqueti fossem um verdadeiro sucesso. Ao ano, as irmãs Eti e Mariucha Morgado vendem mais de 10 mil unidades de Salva-Vidas em cada uma de suas lojas.

A origem do doce é pouco conhecida, mas ele é figurinha carimbada nas comemorações dos paraenses, acredita-se que é um doce típico de Belém e o sabor é inesquecível. O jornalista paraense Yuri Age é fã do doce Salva-Vidas. Ele mora há mais de dois anos em Brasília e sempre que vem a Belém sente vontade de comer o doce que marcou a infância. “Não como sempre, mas é o meu doce favorito”, contou.

A Eti Mariqueti também produz os biscoitos Monteiro Lopes e eles são sucesso de vendas. “O nosso Monteiro Lopes é muito reconhecido, as pessoas vêm na loja para comprá-lo e há várias opções de apresentação. O segredo é a qualidade dos produtos utilizados na receita e o ponto da calda”, disse Mariucha.  

 

 

 

 

 

 

Doce história

 

Pesquisas incansáveis em jornais seculares de diversas bibliotecas públicas e privadas em Belém e na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro para resgatar receitas de doces que se perderam no tempo. Foi assim durante seis meses que a jornalista Lorena Filgueiras deu os primeiros passos para profissionalizar um antigo prazer: a cozinha. O trabalho ficou completo quando Lorena se juntou às mãos talentosas e ao paladar apurado de Bruna Garcia e fundaram a Doux du Jour em outubro de 2016.

A marca tem como lema o resgate de doces e histórias que envolvem a confeitaria paraense. Os doces são ofertados em coleções, a primeira delas foi chamada de Belle Époque e todos os doces possuem uma história seja ela coletiva ou pessoal. A coleção de estreia tinha biscoitos de castanha-do-pará, bom-bocado, um bolo chamado Bolonha, que levava farinha de castanhas do Pará em sua massa, e a torta Francesinha do Norte, esta última com uma história pessoal encantadora.

“Ela nasceu de um comentário que ouvi da vó Maria Lúcia, que dizia que seu pai fora ao Grande Hotel uma vez e ali experimentou um bolo que nunca mais comeu novamente.

Era um bolo simples, ou melhor, um pão-de-ló recheado com doce de gemas. Pesquisa vai, pesquisa vem, dei de cara com a tal receita e me emocionei: era tão simples, que chegava a ser complexa. Seu "segredo", ou melhor, o que a tornava única, era uma delicada infusão de água de flor de laranjeira, que umedecia a massa. E assim (re)nasceu um bolo que era servido no chá das 17h. Como o nome perdeu-se entre as brumas da história, nós a rebatizamos de a Francesinha do Norte. Desafio vocês, como desafiei paladares sofisticados, a não se emocionarem ao experimentarem essa torta. Porque é nas coisas mais simples da vida que residem os prazeres mais sofisticados. A maciez única só foi possível graças ao toque de Midas da sócia Bruna”, contou Lorena. A torta fez tanto sucesso que se fixou no cardápio da Doux du Jour.

 

 

 

Que já lançou outras coleções como a Natal Luz, que trazia o Bolo Rei, feito com nozes e maracujá e a cobertura dourada; Antônio Lemos, uma massa amanteigada e recheio de coco trufado; Bolo Flan de Chocolate; Torta Toffee, com um caramelo delicioso feito pela dupla. A Doux du Jour também lançou uma coleção de docinhos vintage: madeleines, quadradinhos de maracujá, rosquinhas de castanha-do-pará, quindins, queijadinhas, bolinhos de milho verde, olhos de sogra e os tão amados paraenses Monteiro Lopes e Salva-Vidas.  

A dupla ainda guarda uma dezena de receitas que foram descobertas durante as pesquisas e sonham em poder lançar alguma de suas coleções na Casa Paris N’America, na Rua Santo Antonio em Belém. E todo esse amor pela história de Belém será contado em um livro de receitas que será lançado ainda em 2017. “Ele virá com muito afeto. Precisamos devolver para Belém o que é de Belém”, adiantou Lorena.

 
 

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